Certamente você, assim como eu e muitos outros, já passou pela seguinte situação: em uma bela tarde bateu a vontade de retomar ou iniciar o hábito da leitura. Então você procurou uma livraria (provavelmente virtual), sentiu o cheiro das páginas novas, comprou um livro que parece interessante e estabeleceu a meta ambicioso de ler seiscentas páginas até o final do mês e jurou que, dessa vez, iria devorar esse livro.
Chegando em casa, talvez você até tenha conseguido ler o primeiro capítulo, mas logo a rotina atropelou seus planos, o celular vibrou e, de repente, o livro virou apenas um enfeite caro na sua mesa de cabeceira.
Construir o hábito da leitura não tem absolutamente nada a ver com a sua inteligência ou capacidade. O erro, quase sempre, está na carga. Por exemplo, você não vai à academia no primeiro dia e tenta levantar cem quilos no supino. Com a leitura, a lógica é parecida.
Por onde começar a desenvolver o hábito da leitura?
Para treinar e chegar a um volume alto de leitura, você precisa começar com narrativas que façam o trabalho pesado por você. Você precisa de livros fluidos, onde o autor pega a sua mão e te arrasta para dentro da história em um ritmo tão eletrizante que a ideia de parar de ler se torna quase impossível.
Hoje, no Caiu a Ficha, decidi vasculher a minha biblioteca pessoal atras de 10 leituras que fiz, testei e recomendo de olhos fechados para quem quer engatar a quinta marcha na leitura. São histórias sem enrolação, com capítulos que te obrigam a virar a página. Prepare o seu café, escolha o seu universo favorito e vamos construir o habito da leitura.
Se gostar de alguma das recomendações considere comprar o seu pelo hiperlink disponível no nome do livro e depois volte para agradecer a recomendação. Boa leitura!
1. O Cavaleiro dos Sete Reinos (George R. R. Martin)

Se você tem vontade de conhecer o universo de Game of Thrones, mas não pretende se arriscar naqueles livros gigantescos e com descrições exageradas esta é a obra perfeita. O livro se passa quase cem anos antes da série principal e acompanha as aventuras de Sor Duncan, o Alto, um cavaleiro andante gigante e humilde, e seu escudeiro careca, Egg.
Sempre que mergulho na análise de narrativas fantásticas, gosto de observar como Martin estrutura este livro. Ao invés de dezenas de reis e dragões destruindo cidades, temos uma história “pé no chão”, focada em torneios, lama, honra e política em pequena escala.
Apesar do foco em eventos cotidianos esse livro certamente te prenderá do inicio ao fim. O livro é, na verdade, uma coletânea de três contos longos. Essa divisão natural faz com que a leitura seja extremamente rápida, entregando toda a genialidade do autor em um pacote leve e viciante.
2. O Hobbit (J. R. R. Tolkien)
É quase impossível falar de fantasia sem fazer um paralelo direto entre o mundo de Westeros e a Terra Média. Mas enquanto Martin te joga na lama, Tolkien te convida para uma fábula. O Hobbit foi escrito originalmente para ser uma história infanto-juvenil, e isso é o seu maior trunfo. A linguagem é direta, bem-humorada e flui como uma contação de história ao pé da lareira.
Acompanhar Bilbo Bolseiro sendo arrastado contra a sua vontade por um mago e diversos anões para roubar o tesouro de um dragão é uma aventura inesquecível. Se O Senhor dos Anéis é uma maratona complexa e densa, O Hobbit é uma corrida de cem metros rasos: ágil, divertida e impossível de largar antes de chegar ao Final.
3. O Guia do Mochileiro das Galáxias (Douglas Adams)

Se o seu problema com livros é o tédio, Douglas Adams tem o antídoto. A Terra está prestes a ser destruída para dar lugar a uma via expressa hiperespacial, e o inglês Arthur Dent só consegue sobreviver porque seu melhor amigo é, na verdade, um alienígena.
A genialidade deste livro está no humor absurdo e na inteligência afiada. Os capítulos são curtos, os diálogos são repletos de sarcasmo e a narrativa te apresenta ideias mirabolantes a todo momento. É o tipo de leitura que te faz rir em voz alta no transporte público e quebra completamente a ideia de que ler precisa ser uma atividade solene e monótona.
Essa é uma das minhas sagas favoritas, recomendo a leitura a todos. Prepare sua toalha e divirta-se.
4. Desventuras em Série (Lemony Snicket)
Não se deixe enganar pela classificação “infantil”. Acompanhar os órfãos Baudelaire (Violet, Klaus e Sunny) tentando escapar das garras do Conde Olaf é uma das experiências literárias mais únicas e especiais que você pode ter.
Eu lia esses livros entre as aulas nos corredores da Universidade e lembro até hoje da sensação de não querer parar de ler apesar do autor, que atua como o narrador da história, passar o livro inteiro implorando para que você feche as páginas e vá ler uma história mais feliz.
Essa psicologia reversa funciona perfeitamente. Os livros são pequenos, com um enredo inteligentemente e o ritmo de perseguição constante faz com que você termine cada volume em duas ou três sentadas.
5. E Não Sobrou Nenhum (Agatha Christie)

Neste livro, dez pessoas com segredos obscuros, são convidadas para uma ilha isolada. Então, eles começam a morrer, um por um, seguindo a letra de uma cantiga infantil. E o assassino só pode ser um dos dez.
Agatha Christie é a Rainha de histórias de Crime por um motivo. A fluidez deste livro é absurda. O suspense é tão bem construído e a paranóia entre os personagens é tão palpável que o seu cérebro simplesmente se recusa a ir dormir antes de descobrir quem é o culpado. Se você quer testar o poder de um bom mistério para prender sua atenção, comece por aqui.
6. Fortaleza Digital (Dan Brown)
Se o seu problema é a falta de foco, o estilo de Dan Brown é a cura. Muito antes de O Código Da Vinci, ele escreveu este thriller sobre a criptógrafa da NSA, Susan Fletcher, que se depara com um código complexo que nem mesmo o supercomputador do governo consegue quebrar.
Li esse livro no início da adolescência, e a partir dele li todas as outras obras de Dan Brown, se é desenvolver a prática da leitura que você deseja, creio que esse não tenha erro, funcionou para mim.
A fórmula de Dan Brown é desenhada sob medida para a retenção de atenção: parágrafos curtos, muita ação, explicações tecnológicas fascinantes e o seu maior truque — absolutamente todos os capítulos terminam em um um gancho de suspense. O autor não te dá a chance de respirar, o que é perfeito para quem está destreinado na leitura.
7. Como Treinar o Seu Dragão (Cressida Cowell)
Esqueça as animações maravilhosas do cinema; os livros são uma fera completamente diferente (e igualmente fantástica). O Soluço dos livros não é um herói montado em um dragão imponente; ele é um garoto franzino cujo dragão, Banguela, é uma criaturinha minúscula, teimosa e banguela de verdade, que só quer saber de dormir e reclamar.
É uma leitura absurdamente leve, cheia de ilustrações rabiscadas como se fossem o diário do próprio Soluço. A linguagem solta e o humor autodepreciativo do protagonista fazem as páginas voarem. É o livro perfeito para limpar a mente, rir e relaxar depois de um dia estressante. Preciso confeçar meu apreço por livros infanto-juvenis que têm essa qualidade.
8. HQ’s e Mangás
Posso estar burlando um pouco as regras e não recomendando um livro específico, mas esta é uma categoria que precisa estar nesta lista. Existe um preconceito, ao meu ver, infundado de que HQs e Mangás “não são leitura de verdade”. Isso é um erro grosseiro. A narrativa visual exige uma decodificação complexa do cérebro, mesclando arte espacial com diálogo.
Se você não consegue focar em blocos de texto, vá para os quadrinhos. Pegue Maus (Art Spiegelman), que usa ratos e gatos para contar a história do Holocausto de forma visceral. Ou pegue clássicos dos mangás como Death Note, onde o suspense mental te obriga a ler vinte volumes em uma semana.
A mídia visual é a transição mais suave e empolgante entre o vício em telas e o hábito de ler no papel. Deixei uma super recomendação no link do título dessa seção, clique para descubrir.
9. Percy Jackson e os Olimpianos (Rick Riordan)

O que acontece se você descobrir que os deuses gregos estão vivos, moram em Nova York e você é filho de um deles? O primeiro livro, O Ladrão de Raios, é uma aula magna de como escrever uma aventura ágil.
Percy é um protagonista com TDAH e dislexia, e a escrita de Riordan reflete isso perfeitamente: não há espaço para tédio ou descrições intermináveis de árvores e montanhas. A história é frenética, cheia de sarcasmo, batalhas contra monstros mitológicos e ganchos constantes. É o tipo de série que você engole sem perceber.
10. Sete Minutos Depois da Meia-Noite (Patrick Ness)
Para fechar a lista, um livro que é um verdadeiro soco no estômago, mas cuja leitura flui como água. Conor tem treze anos e a sua mãe está gravemente doente. Para piorar, todas as noites, exatamente às 00h07, um monstro antigo e colossal aparece na sua janela.
Mas o monstro não quer matá-lo; ele quer contar três histórias, e exige que Conor conte uma quarta história, que deve ser a verdade mais profunda e assustadora do garoto.
Apesar da carga emocional densa sobre luto e raiva, o livro é curto, direto e possui uma prosa hipnotizante. É a prova definitiva de que um livro não precisa ser longo e difícil para entregar uma mensagem que ficará gravada no seu cérebro para o resto da vida.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. É errado abandonar a leitura de um livro no meio se eu não estiver gostando?
De forma alguma. O direito de abandonar um livro ruim (ou que simplesmente não ressoa com o seu momento) é o mais importante para o leitor. Se o livro não te capturou após cinquenta páginas, feche-o, doe e pegue outro. Ler por obrigação é o que mata o seu hábito.
2. Quantas páginas devo ler por dia para criar o hábito de leitura?
Esqueça metas volumosas e a preocupação com o julgamento alheio. Seu cérebro foge de grandes esforços e mudanças radicais. Inicie com uma meta baixa e que você consiga cumprir, vá no seu ritmo: se você só consegue ler 10 páginas por dia, tudo bem; se só consegue 5, faça disso um começo e progrida com o tempo. Poucas páginas levam pouco tempo e a consistência diária fortalece as rotas neurais do hábito muito mais rápido do que tentar ler cem páginas apenas no domingo.
3. Ler no celular vale como leitura?
Do ponto de vista da absorção da história e do desenvolvimento do hábito, sim. Porém, você precisa tomar cuidado pois o smartphone é o ambiente mais hostil do mundo para a atenção. O atrito de resistir a responder uma mensagem do WhatsApp enquanto você lê drena o seu controle inibitório e gera fadiga. Para mim funciona bem, mas ainda prefiro papel ou e-readers dedicados.
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